Projeto QG da Luta: golpes e valores

O projeto Quartel General- QG da Luta é uma iniciativa social fundada no ano de 2006 e que, atualmente, conta com a participação de, pelo menos, 200 jovens. Atende diretamente crianças de famílias de baixa renda e de vulnerabilidade social através da prática esportiva, em específico, da prática do Jiu-jitsu.

O projeto nasceu no Espaço Clube do Marquês, na zona norte da capital, através de um sonho de infância do coronel do exército, Luís da Costa de Oliveira Júnior. Esse sonhou teve início com o objetivo de transformar o espaço esportivo em um lugar educacional e transformar a vida de familiares desacreditados em um futuro próspero.

Fonte: Gabriela Macena 

Diante do crescimento, seu o fundador decidiu expandir a prática da atividade em diferentes bairros, como Promorar, Dirceu II, Vila Maria, e até mesmo em outras cidades, como Parnaíba e Altos. E conquistou alunos fora do país, como em Portugal.

Atualmente, a atividade se transformou em uma filosofia de vida e contagiou jovens de diferentes faixas etárias. Os treinos acontecem de segunda à sexta, dividindo o público entre adultos e infantil; e, aos sábados, treinos exclusivos para o público feminino, que conta com a presença de 16 mulheres com o objetivo em comum: conquistar seu espaço, já que o jiu-jitsu é uma atividade predominantemente masculina.

Isabela Castro Rocha, 22 anos, aluna do projeto, afirma que a visão de mulheres voltadas para o Jiu-jitsu ainda é muito limitada e que enfrenta desafios diante de alguns treinos em que apenas ela é mulher: “Eu estou aqui desde os meus 13 anos, aprendi muito sobre respeito e como ajudar ao próximo. A presença feminina ainda é muito pequena, mas estamos incentivando diariamente, com o objetivo dessa atividade se tornar algo comum entre as meninas. O toque e o contato físico causam receio, mas, aos poucos, vamos desconstruindo esses preconceitos”.

Outro grande problema que os atletas enfrentam dentro desse esporte é a desigualdade de premiação nos campeonatos. Um episódio que evidenciou essa diferença ocorreu no Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu, organizado pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo (CBJJE) em 2017, em que o campeão da categoria masculina absoluto, faixa preta, ganhou R$ 5 mil; enquanto que, na mesma categoria, porém, no feminino, a campeã foi contemplada com R$ 2,5 mil.

Fonte: Gabriela Macena 

A atleta Isabela Rocha ainda demonstrou a sua dificuldade diante dos valores dos kimono e a forma como isso afasta as pessoas de conhecerem o esporte: “um kimono custa, em média, R$ 300,00 reais, se a gente for analisar, não é um valor acessível para todos. Tentamos fazer estoque de alguns, com o objetivo de as pessoas não desistirem. Eu vou continuar lutando por esse esporte e acreditando que, futuramente, teremos uma quadra cheia de mulheres praticando o Jiu-Jitsu”.

A inclusão dos atletas nas grandes competições ainda é um grande desafio. Existe uma falta de apoio dos órgãos governamentais e, principalmente, a valorização do esporte como uma profissão.

No projeto “QG- da Luta”, muito alunos dedicam uma parte do seu tempo na expectativa de conquistar reconhecimento e viver apenas da modalidade. Maicon Eduardo Sousa, 17 anos, é um dos alunos do grupo que sonha em se tornar um grande atleta e destaca as dificuldades e a falta de apoio ao longo da sua trajetória: “O meu sonho é conseguir brilhar como um grande competidor. Recentemente participei do campeonato Salvador Open, na Bahia, não tive apoio de absolutamente ninguém que pudesse deixar o caminho mais fácil”.

O atleta relatou que precisou criar eventos sociais para conseguir arrecadar fundos. “A gente se organizou, e fizemos rifas, fui juntando dinheiro com ajuda de familiares, não queria desistir do meu sonho. Mas, é tudo muito difícil quando não temos suporte”.

O Projeto, que tem como slogan a frase 'Em busca do campeão forma-se o cidadão', onde visa resgatar jovens e transformar vidas. Ainda luta contra a falta de segurança pública durante os treinos e a ressocialização de jovens na sociedade, que vivem no mundo da criminalidade.

Michael Antônio Nunes, 37, policial militar e professor há 4 anos, relatou os riscos que o grupo já passou com a falta de segurança e iluminação na quadra: “Já fomos assaltados mais de cinco vezes, tivemos que colocar câmeras de segurança com nosso próprio dinheiro, como uma forma de sentir mais seguros, apesar disso, não desistimos, tenho alunos que me dão forças para continuar lutando por essa causa”. O professor ainda relatou que o Coronel Luís da Costa de Oliveira prefere pagar a mensalidade particular de alguns alunos, com o objetivo de tirar esses jovens da criminalidade: “Temos alunos que estudam através do nosso auxilio, é uma forma de incentivo e de manter o jovem focado nos treinos e na educação, sempre destacamos a importância dos dois caminharem juntos.”

Atualmente, o Projeto cobra apenas uma taxa simbólica de contribuição, que varia em cada local, entre R$10,00 e R$ 20,00 mensais. Mateus Oliveira Reis, 23, aluno do projeto desde seu ensino médio, explica que esse valor é para ajudar na manutenção do ambiente, como lâmpadas, e limpeza do local. O atleta fala sobre os horários das aulas: “A gente tem que chegar 20h em ponto, se chegar atrasado, leva bronca do mestre”. E também sobre o funcionamento das práticas: “Sempre começamos com um aquecimento, para depois o professor dividir quem luta com quem. Cada aula é especial e tem ensinamentos diferentes, estamos sempre de portas abertas para receber todos que estejam disponíveis para entrar nesse universo”.